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Somente o Funk Salva! Valeu Anitta!

Por Álvaro Maciel*

Por Tribuna em 15/07/2022
Somente o Funk Salva! Valeu Anitta!

As declarações da cantora Anitta pró Lula mexeram com a cena política do Brasil. Tanto o Funk como o Hip Hop sofrem preconceito por uma série de motivos. O preconceito contra a cultura de massa, talvez, seja o principal eixo dessa repulsa.

Podemos apontar também o racismo e outras causas correlatas. Mas não para por aí, a poética dos movimentos culturais de favelas e periferias se torna invisível aos olhos da discriminação, exatamente por que aborda questões que não são comuns aos moradores dos bairros de classe média. Portanto, trata-se de uma questão política. Uma negação à diversidade cultural e à multicentralidade das cidades.

O perfil das periferias mudou bastante nos últimos durante os governos de Lula e Dilma. A implantação do Sistema Nacional de Cultura, os programas Cultura Viva e Livro e Leitura, o aumento de verbas para a Cultura promovido na gestão Gil e Juca, por exemplo, são ações que valorizaram bastante a produção cultural e as atividades de formação de jovens artistas, agentes culturais e produtores moradores em áreas empobrecidas.

Houve um aumento considerável na realização de oficinas de arte e de tecnologia que resultou numa inclusão significante nos segmentos de audiovisual, fotografia e música, dentre outros, aliada à construção de sites e plataformas.

Quem está “de bobeira” e cheio de “mancada” não consegue enxergar a força da produção cultural dos territórios ditos periféricos. Os versos da roda de rima falam de problemas sociais de forma singular. Uma poesia enraizada com os problemas locais, que na verdade são da cidade, do estado e do país.

Os bairros onde moram os menos favorecidos estão bem servidos de pessoas criativas. Com suas mensagens diretas e cheias de firmeza, ao vivo na cena, os versos e prosas, penetrantes, misturam sensualidade e política com muita naturalidade e colocam a arte na centralidade da vida de muitas pessoas que vivem à margem da cidadania.

E quando a música entra, vem “quebrando com tudo dentro”, amores e rancores, guerra e paz, suavidades e agressividades, em atividades produzidas, geralmente, com participação efetiva da juventude.

E é por isso que a direita odeia o funk, o hip hop e toda cultura das favelas e periferias, pois, conhecem bem o papel da cultura na formação e de uma consciência individual e coletiva. A Anitta não mora em favela, mas sua arte está diretamente ao lugar onde nasceu, o bairro de Honório Gurgel, no Rio de Janeiro.

E quem ainda pensa a cultura de massa de forma negativa, tome mais cuidado: outro dia li no muro de uma favela a frase “somente o funk salva” e na hora não liguei muito para o sentido profundo da mensagem.

Mais tarde pude construir uma reflexão a respeito de que o poeta estava falando de arte e apropriação de território, e ao mesmo tempo defendia sua liberdade para falar o que quiser, do que quiser e como quiser, enquanto produção artística.

É esse um dos sentidos da arte, ser livre e libertadora. Assim o “libertar” pode ser considerado um sinônimo de “salvar”.

Obrigado Anitta, “tamu junto”. Vamos salvar muitas vidas! “É nóis” no pedaço!

* Álvaro Maciel é membro do Conselheiro Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, mestrando em Sociologia Política e Diretor do Instituto Niemeyer.

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