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Por que não votarei em Jair Bolsonaro

Por Ricardo Oliveira da Silva (Professor do Curso de História da UFMS/CPNA)

Por Ricardo Oliveira da Silva em 18/06/2022
 Por que não votarei em Jair Bolsonaro

Em uma das entrevistas que concedeu, o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) expos o que entendia como uma postura de direita e de esquerda. Para ele, o limite entre as duas posturas seria dado por uma questão de percepção. No caso, a direita pensaria a partir de si, de dentro para fora; já a esquerda pensaria num fluxo inverso, de fora para dentro.

Nas palavras do filósofo: “Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure”. Ser de esquerda seria o contrário: “Primeiro, vê-se o horizonte e sabe-se que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode mais durar. Não é possível esta injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção”.

O atual mandatário do Executivo Federal, Jair Bolsonaro, que tenta se reeleger em 2022 para a presidência da República, se define como um político conservador e de direita. A sua prática política se baseia em uma visão de mundo, ou, usando o termo de Deleuze, “percepção”, que estabelece um referencial normativo identitário (cristão heterossexual, patriarcal, autoritário) a partir do qual julga, para incluir e excluir, quem faz parte da sociedade na qual está inserido, como no lema “defesa da família tradicional brasileira”.

A partir de tais premissas, tudo aquilo que de algum modo não se enquadra no escopo daquilo que define como padrão de vida “natural e correto”, é alvo de censura, reprovação e de combate. No plano da atitude sobre alteridade, Jair Bolsonaro já manifestou posturas hostis contra mulheres, “foram quatro homens. A quinta eu dei uma fraquejada, e veio uma mulher” (afirmação de 2017); contra a população LGBTQIA+, “o filho fica assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele. Tá certo?” (afirmação de 2010); contra negros, “fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais” (afirmação de 2017).

No plano político Jair Bolsonaro nunca escondeu o apreço que nutre pelo autoritarismo e a repressão que os regimes ditatoriais cometem contra os opositores políticos: “o erro da ditadura foi torturar e não matar” (afirmação de 2008 e 2016), “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […] o meu voto é sim” (afirmação de 2016), “essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” (afirmação de 2018).

No plano social, o modelo de sociedade de Jair Bolsonaro exclui o que é visto como diferente, “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem” (afirmação de 2017); ou desdenha de quem não resiste as adversidades, como ao comentar sobre a pandemia da COVID e a quantidade de mortos causados por ela, “eu não sou coveiro” (afirmação de 2020), “país de maricas” (afirmação de 2020).

No plano econômico, mas com impacto social, chamou atenção (e minha indignação) a recente divulgação de que o número de famintos no país subiu de 19,1 milhões para 33,1 milhões em menos de 2 anos, 14 milhões a mais em comparação com 2019, sem uma manifestação contundente de Jair Bolsonaro de condenação ao recrudescimento do fenômeno da pobreza, a qual, em parte, é fomentada pela política econômica de seu governo.

A prática política de Jair Bolsonaro ao longo do seu mandato presidencial é marcada por demonstrações em que os interesses pessoais se sobrepõem aos interesses públicos, como o descarte de aliados políticos que não lhe interessam mais e o silêncio sobre as suspeitas de corrupção que recaem sobre sua própria família. Em sintonia com essa postura, agora ele começa a fortalecer suas críticas ao sistema eleitoral no momento em que as pesquisas mostram as dificuldades para sua reeleição. A meta é se perpetuar no poder.

No endereço postal de Gilles Deleuze, Jair Bolsonaro expressa uma postura da direita. Eu, tenho uma postura da esquerda. A prática e o pensamento político do atual presidente são fatores pelos quais eu avalio que ele não merece mais um mandato presidencial. E eu digo isso não em nome de uma moral religiosa ou de utopias seculares, mas da percepção deleuzeana de que as injustiças e intolerâncias são uma ofensa a existência humana.  

 

Referências:

https://www.youtube.com/watch?v=RIsWXZIXbFY

https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-em-25-frases-polemicas/

https://revistaforum.com.br/opiniao/2022/6/17/mais-de-33-milhes-passam-fome-no-brasil-por-raimundo-bonfim-118891.html

https://www.poder360.com.br/coronavirus/2-anos-de-covid-relembre-30-frases-de-bolsonaro-sobre-pandemia/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57730263

 

Ricardo Oliveira da Silva  

Doutor em História pela UFRGS e docente do Curso de História da UFMS/CPN

 

 

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