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Futebol, Maracanã e Democracia

Por Ricardo Menezes - 40 anos de advocacia, Ex-Presidente da CAARJ

Por Tribuna em 05/06/2022
Futebol, Maracanã e Democracia

Futebol historicamente é o esporte de maior paixão nacional e que mais se mobiliza os brasileiros, e o principal templo do esporte no país, é o Estádio Jornalista Mario Filho, o Maracanã, construído com capacidade para mais de 150 mil espectadores, possibilitando que pessoas de diferentes origens, raças e classes sociais pudessem acompanhar “ao vivo” os jogos e torcer pelos seus times.

A ida ao Maraca nas tardes de domingo era um programa tradicional, disponível a toda a população. Famílias inteiras iam ao estádio e o transformavam numa grande arena de lazer, alegrias e sofrimentos, uma verdadeira festa carnavalizada, com músicas, foguetes e bandeiras, construindo assim uma forte identidade com os clubes e com a cidade. Porém, nos últimos anos, o acesso aos estádios de Futebol passou a ser mais restrito ao público, sobretudo às camadas mais populares da sociedade.

Com os grandes eventos que a cidade do Rio de Janeiro recebeu nos últimos anos, o estádio do Maracanã tem sofrido constantes alterações desde as reformas para o Mundial de Clubes da FIFA, em 2000, passando pelas do Pan Americano em 2007, que marcou o fim da geral – setor mais popular do estádio - sem nenhum tipo de consulta popular prévia e, consequentemente, o fim dos geraldinos, que eram figuras folclóricas e icônicas, tradicionais do estádio.

Além disso, a maior intervenção foi feita em 2014, para atender a uma dupla demanda, transformar o estádio em principal palco da Copa e entregá-lo à iniciativa privada. Para isso, o estádio foi adequado às exigências da FIFA, sob o argumento de promover maior conforto e segurança aos torcedores, passando por grandes modificações estruturais.

Após as obras, com o fim da geral, não há mais um setor com ingressos tão baratos, o valor médio do ingresso subiu consideravelmente e com isso as classes populares foram alijadas dos jogos. Observa-se o quanto essas intervenções construíram barreiras físicas, econômicas e simbólicas aos tradicionais torcedores do estádio, buscando estabelecer um novo padrão de torcedor, mais comportado e com mais recursos financeiros.

Ao longo da década de 2000 ocorreu um aumento exponencial do preço dos ingressos, o preço médio do ingresso mais barato saltou de R$9,50 para R$38,00, ou seja, um aumento de 300%, bem acima do aumento da inflação e da renda do trabalhador brasileiro[1]. Por isso, o “novo Maracanã” tornou-se um espaço marcado pela elitização do Futebol, e uma verdadeira arena de disputa de diferentes agentes econômicos para a sua administração.

Outro forte argumento levantado para justificar o aumento no valor dos ingressos é quanto à segurança dos torcedores, uma vez que o aumento do custo de ida ao estádio seria uma forma para tornar o público que vai ao estádio mais elitizado. Inclusive, essas transformações buscaram desterritorializar as torcidas organizadas, estigmatizadas por ações violentas.

Portanto, observa-se com o “novo maracanã” exclui de forma direta as camadas populares de acesso aos estádios, seja pelo fim da antiga geral, como também pelo aumento considerável do valor dos ingressos.  

Os torcedores precisam restaurar sua relação com o estádio e querem retornar a frequentar os jogos assiduamente, afinal de contas, o futebol segue sendo a grande paixão nacional e sendo os jogos a principal fonte de lazer de grande parte da população. Para isso, busca-se a democratização do esporte, através da viabilidade de acesso das classes mais baixas ao “novo Maracanã”.

Com esse intuito, foi editada a Lei 8.575/19, de autoria dos deputados estaduais, Zeidan e André Ceciliano. sancionada pelo governador Wilson Witzel, que estabelece a criação dos setores, nos moldes da antiga "geral".

A Lei autoriza que o governo do Estado do Rio realize obras de segurança, como também fazer a retirada das cadeiras dos setores Norte e Sul, hoje existentes na parte inferior do estádio Mário Filho, para voltar com os setores de ingressos mais populares. Porém, para isso se concretizar, tem que ser cobrado e exigido da administração e dos clubes que fazem uso do estádio. Além disso, os ingressos terão seus preços definidos pelos clubes, após estudo de viabilidade econômico-financeira e de condições de segurança.

Vale ressaltar que para que o Maracanã não perca a capacidade de receber jogos internacionais e continue nos padrões da FIFA, o setor sem cadeiras deverá ser móvel, para que os assentos sejam recolocados para as competições em que são exigidos lugares sentados.

Essa lei é um grande passo para o Futebol, mas, apesar dela já está em vigor, os torcedores ainda aguardam que seja colocada em prática para que os geraldinos retornem ao templo do Futebol. O povo carioca quer retomar seu espaço nos estádio, e resgatar a emblemática marca cultural que representam mundialmente, por isso, é em busca dessa redemocratização do esporte que devemos lutar.

[1] Em 10 anos, ingresso de futebol sobe mais que salário mínimo. Disponível em: https://exame.com/economia/ingresso-de-futebol-sobe-mais-que-salario-minimo/. Acesso em 01 jun. 2022.

Por Ricardo Menezes - 40 anos de advocacia, Ex-Presidente da CAARJ

Quem me conhece, sabe que eu tive uma vida voltada para servir pessoas. Eu sinto prazer em ver pessoas satisfeitas ao proporcionar alguma melhora em suas vidas.

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