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Entrevista III - Hélio Fernandes

Dando continuidade a série de entrevistas com o ilustre jornalista Helio Fernandes, Roberto Monteiro Pinho imerge em temas importantes da história do nosso país

Por Tribuna em 15/04/2021
Entrevista III - Hélio Fernandes

*Roberto Monteiro Pinho 

Quando Helio Fernandes completou 99 anos, gravei uma série de entrevistas que a pedido do jornalista estranhamente só seriam liberadas no ano seguinte. Em sua residência no Jardim Botânico – Rio de Janeiro, ele falou de política, lembrou episódios já relatados em sua coluna, sobre a “Ditadura Militar de 64”. Foi um encontro ameno, ao som de cantos de pássaros, no ambiente ao ar livre, com a brisa afável, e o silêncio digno do ícone do jornalismo brasileiro. Ao todo foram seis entrevistas gravadas. Perguntas respondidas as vezes com os olhos marejados.  

Conheci bem a personalidade do Helio, não gostava de intimidade, de aproveitadores, e bajuladores. Quando ia a redação, minha sala ficava no início do corredor de acesso, ele acenava, depois sentava com ele e o diretor comercial Coelho, para ouvir suas observações. Sem dúvida um mestre do jornalismo, com uma riqueza de dados, valiosos e que moldei para atuar na profissão. Foram momentos emocionantes, onde a coragem e o destemor deste combativo baluarte do jornalismo, se fez presente 

Tribuna da Imprensa Digital – Como começou exatamente o golpe de 64? 

Helio Fernandes - Como já disse exaustivamente, em 1963 com o desfecho no ano seguinte, todos conspiravam: generais, governadores, o próprio ou principalmente Jango. O ano de 63 a partir do referendo de 6 de janeiro, que devolveu todos os poderes a Jango, foi inacreditável. Ninguém sabia o que aconteceria no dia seguinte. Só se soube mesmo a partir de 31 de março, 1º de abril. Os generais comandaram tudo, eram invencíveis e golpistas, desde que se “apoderaram” e “contaminaram” a República. É possível que os seis governadores mais importantes, todos candidatos a presidente em 1965, tenham dado a impressão de apoiar ou estimular o golpe.Mas ninguém tinha condições de resistir à ambição e a obsessão pelo poder, publicamente exibida pelos general. 

Tribuna da Imprensa Digital – Fala um pouco da Frente Ampla já que o senhor foi um dos protagonistas? 

Helio Fernandes - Quando realizei na minha casa (onde moro até hoje) as duas primeiras reuniões, comuniquei e convidei Lacerda. Perguntou: “Quem vai?”. Falei, o coronel-Ministro da Saúde de Jango, Wilson Fadul, torturadíssimo, o Brigadeiro Teixeira, grande líder da Aeronáutica, o editor Ênio Silveira, tão comunista que seu primeiro filho se chama Miguel Arraes da Silveira, Flávio Rangel, notável jovem que acabara de fazer com Millôr, o maior espetáculo depois do golpe, “Liberdade. Liberdade”, ele me interrompeu, “Eu vou”. Foi, nenhum deles jamais falara com Lacerda, nem ele conhecia nenhum dos outros. Mas foram quatro horas de conversa que depois se desdobram com Jango e JK, Brizola se recusou. 

Tribuna da Imprensa Digital – Quando o senhor percebeu que a ditadura iria perseguir e prender jornalistas, não pensou em fugir do país?  

Helio Fernandes - Foi tudo repentino. Havia algo no ar. Depois de preso pensei em fugir, mas resolvi enfrentar o sistema. Louvo ser um dos poucos que teve a coragem de enfrentamento sem pegar em armas. A única arma era o meu jornal, um canhão, a Tribuna era fulminante e temida pelos generais.  

Tribuna da Imprensa Digital – Quando soube do AI 5, qual foi sua reação? 

Helio Fernandes - Quando em 13 de dezembro de 1968 o locutor Alberto Cury começou a ler na televisão, às 8 e meia, o AI-5 miserável e vergonhoso, comecei a me vestir. Não era horário de sair sozinho, Rosinha perguntou onde eu ia, respondi: “Para o jornal”. Naquela época não havia nem remota indicação de celular, na porta de saída da minha casa, um telefone. Tocou, Rosinha atendeu, passou para mim, “é o Carlos”.  

Atendi, disse pra ele, “estou saindo, vou ser preso imediatamente, você talvez seja a única pessoa que eu atendesse”. Ele: “E eu?”. Respondi, “você vai ser preso e será cassado”. Do outro lado, um berro: “Você está acostumado a adivinhar, não serei preso nem cassado”. Desliguei, fui para o jornal, logo preso. Levado para o Caetano de Farias. Pensei que fosse o primeiro, já encontrei Osvaldo Peralva, editor do Correio da Manhã, grande amigo, passamos a noite conversando.  

Leia também: Tribuna da Imprensa Digital – Entrevista: Helio Fernandes

Entrevista II - Hélio Fernandes

Tribuna da Imprensa Digital – E a prisão de Lacerda? 

Helio Fernandes - Pela manhã, às 9 horas do fatídico dia, chega Lacerda. Me abraça, diz: “Está bem fui preso, você adivinhou uma parte, mas não serei cassado”. Isso era 15 de dezembro. No dia 30 Lacerda foi cassado, já não estava mais preso. Eu, Peralva e Mario Lago ficamos até 6 de janeiro, Dia de Reis. Os generais são perseguidores, mas também muito católicos. No dia 2 de janeiro de 1969, Lacerda viajou para a Europa, teve a gentileza de ir se despedir de nós. Não podia deixar de falar: “Não interessa discutir com você, a não ser que não valha adivinhação”. Ficou 3 anos na Europa, mais de 1 ano em Milão 

Tribuna da Imprensa Digital – Um político que o senhor admira? 

Helio Fernandes – Carlos Lacerda sem dúvida. Foi um combatente nato. Inteligentíssimo, boa oratória. Podem dizer dele o que quiserem, contra ou a favor, mas não podem negar a palavra. Podem até interpretá-la, para o bem ou para o mal, só não podem negá-la. Mas apesar de ter sido o personagem de uma época, não saiu, pelo menos até agora o registro do nascimento e morte. E o centenário, data mais do que razoável para lembrar. Lacerda outro “presidenciável” também injustiçado, sem eleição 30 anos depois, em 1961, Lacerda se elegeu governador do então Distrito Federal transformado em Estado da Guanabara. Foi e é até hoje o mais importante governador eleito.  

Tribuna da Imprensa Digital – O que dizer de Getúlio Vargas? 

Helio Fernandes - Em 1931, Pedro Ernesto foi o primeiro prefeito eleito do então Distrito Federal. Grande personagem, administrador notável, foi injustiçadissimo por Getúlio Vargas. O prefeito era tido e havido como candidato a presidente, se houvesse sucessão nos tempos de Vargas. Este, como sempre, burlou a Constituição, enganou o povo, devia convocar eleição direta, logo depois da Constituição de 1934. Frustrou o povo brasileiro, se “elegeu” indiretamente, marcou a direta, que também não faria, para 1938. E perseguiu Pedro Ernesto. Acusando-o de “comunista e de ter participado da intentona de 1935”. 

Tribuna da Imprensa Digital - Vargas queria se perpetuar no Poder? 

Helio Fernandes - Sempre, um obcecado pelo Poder e censurador implacável. Em 1943 surgiu o “Manifesto dos Mineiros”, a ditadura embalançou. Mas Vargas reforçou a censura. Em 1944, já criada, (não oficialmente) a UDN, decidiram publicar entrevista com José Américo, homem de grande repercussão, chamado de “vice Rei do Nordeste”. Por que José Américo? É que em 1936, usando Benedito Valadares, Vargas abriu “sua sucessão”, uma farsa, como sempre. José Américo foi lançado candidato da situação, e Armando Salles de Oliveira, genro do doutor Julio Mesquita e interventor em São Paulo, candidato da oposição. Não houve eleição, claro, surgia à ditadura ostensiva do Estado Novo. 

Foto: Acervo pessoal.

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