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‘Defensores da liberdade’ queriam controlar a imprensa, a democracia e...a liberdade

Sistema de espionagem israelense que Carlos Bolsonaro ensaiou compra e abriu um racha com a inteligência brasileira visou 180 jornalistas pelo mundo

Por Tribuna em 19/07/2021
‘Defensores da liberdade’ queriam controlar a imprensa, a democracia e...a liberdade

“Estamos sob ataque. Há um plano e um objetivo. As vítimas não são os jornalistas. Mas sim a democracia e a liberdade”. A afirmação é do jornalista Jamil Chade em artigo no Uol neste domingo (18), se referindo à revelação de que ativistas de direitos humanos, jornalistas e advogados em todo o mundo têm sido alvos de espionagem através do sistema de software de hacking vendido pela empresa de vigilância israelense NSO Group.

Pelo menos 180 profissionais estavam em uma lista obtida pela imprensa internacional que revela o interesse de clientes em espionar os telefones desses jornalistas.

O software Pegasus foi criado pelo grupo NSO, de Israel. De acordo com publicações como "The Washington Post", "The Guardian" e "Le Monde", uma lista de até 50 mil números de telefone pode ter sido alvo do sistema nos últimos cinco anos. Os documentos foram inicialmente obtidos pelas entidades Anistia Internacional e a Forbidden Stories.

Nem todos esses números chegaram a ser hackeados. Mas a lista inclui profissionais de meios como "The Wall Street Journal", CNN, "The New York Times", Al-Jazeera, France 24, Radio Free Europe, Mediapart, "El País", Associated Press, "Le Monde", Bloomberg, "The Economist", Reuters e Voice of America.

De acordo com os jornais, dois dos números de telefone pertencem a mulheres próximas do jornalista saudita Jamal Khashoggi, morto por um esquadrão saudita em 2018 na Turquia. A lista ainda traz o número de telefone de um jornalista mexicano que foi assassinado.

Muitos desses jornalistas estavam em locais como Azerbaijão, Barein, Hungria, Índia, Cazaquistão, México, Marrocos, Ruanda, Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Em maio, o portal UOL revelou com exclusividade como Carlos Bolsonaro ensaiou a compra do mesmo equipamento. A licitação em questão era a de nº 03/21, do Ministério da Justiça, no valor de R$ 25,4 milhões. O lobby do filho do presidente abriu um racha entre o Planalto e parte da inteligência brasileira. Carlos Bolsonaro, na época, ironizou a reportagem.

Agora, as revelações apontam que a espionagem contra jornalistas não é uma iniciativa de amadores ou governantes isolados que, desesperados, optam por silenciar a imprensa e ativistas. Os detalhes das reportagens mostram que o trabalho é sistêmico, profissional e amplo.

Um dos usuários do sistema estaria na Hungria, país comandando por Viktor Orban e um dos poucos aliados de Jair Bolsonaro pelo mundo. Ao longo de uma década, as autoridades de Budapeste conseguiram estrangular a imprensa e a guinada autoritária no país do Leste Europeu passou a ser consideradas como referências em Brasília.

Alguns meses antes da pandemia começar, em uma viagem para a capital da Hungria, estive com um dos poucos editores independentes que ainda consegue sobreviver financeiramente no país. O local do encontro foi um centro cultural alternativo, sede de movimentos progressistas e LGBT sob ataque.

No meio de nossa conversa numa mesa afastada das demais, um homem se aproximou dizendo que admirava muito a coragem do jornalista húngaro. E ofereceu uma cerveja. O editor agradeceu, encerrou o diálogo com o estranho e sequer tocou no copo oferecido durante toda a noite, que permaneceu naquela mesa como uma espécie de símbolo da desconfiança que vivem profissionais sob constante ataque e monitoramento.

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