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Carnaval e seus artífices - Os trabalhadores dos bastidores do Carnaval

Por Sérgio Almeida Firmino . em 05/11/2021
Carnaval e seus artífices - Os trabalhadores dos bastidores do Carnaval

A sociedade tornou-se dinâmica ao extremo, imagine-se daqui a cem anos como será?

O fato é que de hora em hora, minuto a minuto, percebe-se novas ideologias substituídas com celeridade espantosa dos discursos mais antigos, entretanto, estes foram super modernos no passado.

No passado intelectuais e artistas eram os porta-vozes de novas ideologias e por meio deles formavam-se modernos discursos.

Na segunda metade do século XIX (1850-1901), líderes de inúmeras categorias se reuniram com propósitos definidos de combater discursos obsoletos que proferiram ou até marginalizaram alguns setores da sociedade.

Os trabalhadores das fábricas, por exemplo, do país inteiro, promoveram greves, para reivindicar os seus direitos, haja vista, em outras partes do mundo, as notícias eram de que havia justiça social, direitos das mulheres e a formação do “feminismo”, movimentos contra a segregação racial, que exigiam por parte daquelas democracias, políticas públicas, que garantissem maior liberdade e respeito aos segmentos sociais e profissionais, para o pós “abolição da escravatura” como ocorrera nos Estados Unidos da América do Norte.

Essas ideologias ecoaram no Brasil e conduziram em dar vozes à periferia, que começava a falar mais alto, envolvidas de sentimento em suas manifestações políticas, porém de peso cultural; apontando a diversidade social principalmente, que passou a ser tema constante dos debates acadêmicos.

A sociedade como um todo, ouviu e moveu-se para a discussão de novas ideologias. Seja através de livros, jornais, revistas, trabalhos fotográficos, grafite, desenhos, pinturas, textos literários, debates promovidos por entidades da sociedade civil, enfim.

O que se pode enfatizar com segurança, é que de todas essas linguagens e veículos de ideologias, que clarearam o olhar e atenção do povo, a que mais contribuiu foi o Carnaval e as Escolas de Samba.

Através do Carnaval, diversas linguagens expressam antigas e novas ideologias. As letras e composições musicais sempre foram apreciadas por todos, especialmente para os menos alfabetizados da população.

As propagandas publicitárias, caricaturas, charges, filmes, enfim, todas essas linguagens, estão dentro de uma Escola de Samba, seja ela de qualquer tamanho e esplendor, por um acaso abrigadas pela maior manifestação cultural do mundo que é o Carnaval.

O Carnaval e seu enorme poder laborativo, definidos pela sua pluralidade de atividades e ocupações, do trabalho direto e indireto, que tramita diuturnamente nos Barracões das Escolas de Samba, locais de intenso trabalho e criatividade e principalmente por conta de sua grandeza e tendência sócio-política e econômica em trazer à luz os problemas sociais e outras compreensões.

As Escolas de Samba nunca foram muito bem vindas pelos governantes e autoridades constituídas. Se assim fosse, não teriam os graves problemas de sobrevivência, todos os anos e em todo o estado do Rio de Janeiro.

Caso contrário, e com vontade e total interesse político, fariam das Escolas de Samba de todo o Rio de Janeiro o “glamour” que sua historiografia merece.

Segundo o empresário José Antônio Rodrigues, produtor e criador da empoderada marca Plumas & Paetês, assevera que existam 46 (quarenta e seis) atividades distintas numa Escola de Samba.

Poderíamos até arriscar mais de 50 atividades de trabalhadores do Carnaval, que são: Aderecista, Assistente de Coreógrafo, Assistente de Tecnologias, Artesão de Vime, Aramista, Artista Plástico, Assessor de Marketing, Batedor de Placas de Acetato, Bordadeira, Carnavalesco, Carpinteiro, Chapeleiro, Compositor, Comunicadores do Carnaval, Cantor, Coreógrafo, Costureira, Desenhista, Destaque de Luxo Masculino, Destaque de Luxo Feminino, Destaque Performático Masculino, Destaque Performática Feminina, Design Gráfico, Diretor de Barracão, Diretor de Carnaval, Diretor de Harmonia, Escultor de Isopor, Escultor de Espuma, Escultor de Formas em Movimento, Estilista, Ferreiro, Figurinista, Gestor de Ateliê, Iluminador, Laminador, Empastelador, Marceneiro, Maquiador Artístico, Mestre de Bateria, Mestre-Sala, Modelista, Porta Bandeira, Passista Masculino, Passista Feminino, Pesquisador, Pintor de Arte, Projetista, Sapateiro, Técnico de Efeitos Especiais, Tingidor de Penas.

Cabe aqui motivação para citar o professor, escritor e consultor administrativo Peter Drucker e sua “gestão por objetivos” que se encaixa no tipo de métodos de planejamento, que tomam como base os fatores quantitativos das atividades de uma Escola de Samba.

Outro conceito do professor é a descentralização das empresas, que ele indicava como sendo a divisão de trabalho. O que mais chama atenção nos conceitos desse austríaco, nascido em 19 de novembro de 1909, portanto, início do século XX, é a sua atenção às duas forças de trabalho distintas à disposição dos empregadores: a das pessoas com menos e mais de 50 anos de idade.

As empresas deverão remunerá-las de forma diferente: as primeiras com menos de meio século, carecem de renda constante e estável; a segunda, seria aproveitada em trabalhos temporários. Dentro de um Barracão de Escola de Samba a idade pouco representa, a não ser o mais experiente ensinando o aprendiz.

Paulo Freire preferiu ser simples e pontual em apontar “não basta ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com seu trabalho”.

Através do fenômeno social e cultural Escola de Samba, as populações dos municípios do estado do Rio de Janeiro, de suas periferias, favelas e comunidades, aprenderam a conviver com a leitura dos versos dos sambas de enredo e de quadra.

Mesmo para aqueles de pouca leitura e escrita, as estrofes dos versos eram expressadas e cantadas, daí o alto nível cultural dos enredos e dos sambas, que são obrigados a serem contextualizados e transformados fisicamente em fantasias, adereços de mão, de cabeça ou sobre os carros alegóricos.

A Escola de Samba é, portanto, veículo gigantesco, genuíno cultural, educacional. São além disso, verdadeiras indústrias com todo o vigor da palavra.

Desempenham atividades intelectuais, administrativas, de pessoal e marketing, como em qualquer outra indústria, seja automobilística, de bens de consumo ou cinematográfica, como são as indústrias do cinema dos EUA.

Por que o Brasil não está em pé de igualdade com a indústria do cinema americano com relação ao Carnaval? Talvez tenha sido o protecionismo maciço do governo americano e seu firme objetivo ao lucro e receitas para os cofres públicos, que motivaram o crescimento invejável dessa indústria.

O protagonismo laborativo, exaltando a teia produtiva exuberante e crescente, como também a capacidade de ajustamento em movimentar-se na direção das inovações, fazem da Escola de Samba algo raro, que merece muito estudo.

Segundo a professora Luana Lourenço, fundadora do Grupo de pensadores em Capitalismo Consciente, as Escolas de Samba precisam se preparar para o próximo momento.

Elas chegaram no topo, no vértice de buscar novos caminhos, de fato, estão exatamente no ponto de estabelecerem espaço para novas parcerias, menos relação com governos, mais interação com a iniciativa privada. Aliás elas mesmo, possuem esta formação.

A autossustentabilidade de seu espaço industrial, carece de entrosamento com empresas que atuam e demonstram seu sucesso nas publicações através de seus índices econômicos. Inovar, conquistar autoconfiança, desenvolver habilidades, que são inatas, buscar refinamentos e organização para ajustar-se e tornar-se indústrias de interesse sólidas e robustas à frente dos grandes conglomerados, esses são passos a percorrer.

A professora Luana Lourenço apresenta um cardápio de itens básicos, na crença indubitável do crescimento econômico que envolve as Escolas de Samba.

A advogada assevera que as lideranças de Carnaval precisam estudar, compreender sutilezas do capitalismo consciente, do qual estão inseridas. Com efeito, passou a hora de saber mais sobre governança, compliance, auto sustentabilidade, inovação, conscientização sócio-econômica e cultural.

As Escolas de Samba precisam esquecer o passado paternalista e criarem seus próprios trajetos, de certa forma já demarcados através dos seus 90 anos de idade.

A conclusão é que a Escola de Samba é a indústria criativa cultural mais perfeita e projetada naturalmente no âmbito empresarial, sobrepujando a indústria convencional.

Ao referir-se a Escola de Samba, há necessidade de ser cuidadoso em verificar seu contexto social, muito além do econômico, porém inseridos no mesmo conceito.

As Escolas de Samba construíram um sistema absolutamente social, cultural, autossustentável e de valor compartilhado.

São organizações fabris, das quais também são desenvolvidos os conceitos primordiais de serem estas indústrias, pungentes e promissoras em seu nascedouro, empoderadas de valores sociais e culturais.

Sobre os valores compartilhados devem partir do pressuposto, que através de uma Escola de Samba, poderão ser criados outros objetivos sem fugir da estrutura que a Escola de Samba oferece naturalmente.

Seja no âmbito da educação, da cultura, da indústria, do comércio, das pessoas que trabalham nos bastidores. Essas sim, os artistas invisíveis, que a luz dos holofotes não conseguem focar em dias dos desfiles de beleza e criatividade.

A estes profissionais das Escolas de Samba, seus dirigentes devem começar a demonstrar e reconhecer a necessidade de se pensar grande, pensar como verdadeiras empresas, servindo aos seus trabalhadores todo sortimento de garantias sociais legais, das quais serão cobradas através das possíveis parcerias com outras empresas.

Sem dúvida, a roda já foi inventada, no entanto, há de se investir em: inteligência, sustentabilidade, capacitação, tecnologias, organização, participação das comunidades e naturalmente, exaltar os trabalhadores das Escolas de Samba.

Diante de tudo isso, seria razoável propor para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, para a Câmara Municipal de Vereadores do Rio e para as Casas Legislativas Municipais dos demais municípios fluminenses, a criação do dia do Artífice (profissional) da Economia Criativa do Carnaval!

Como citado acima, segundo José Antônio Rodrigues, são 46 (ou mais) atividades distintas que movimentam a cadeia produtiva da Indústria Criativa Cultural do Carnaval, e precisam cada vez mais serem reconhecidas pela importância cultural, histórica e econômica.

Ainda como sugestão, ao dia do Profissional da Economia Criativa do Carnaval do estado do Rio de Janeiro, vislumbro seria uma excelente opção, homenagear Fernando Augusto da Silveira Pamplona. Pamplona, como era carinhosamente chamado pelos seus amigos, nasceu em 28 de setembro de 1926 no Rio de Janeiro, o “ Pai de Todos”, pode ser considerado como o maior incentivador da arte popular, tendo o Carnaval, em especial as Escolas de Samba, como seu cenário principal.

Seria justo mencionar sua presença no Mundo do Samba, e que ele tenha influenciado a divisão no tempo, antes e depois de Pamplona. Cenógrafo, professor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, com sua habilidade e sensibilidade, esse Salgueirense trouxe à luz outro modo de se pensar Escola de Samba a partir de 1960.

Fernando Pamplona foi casado com Dona Zeni durante 60 anos, pai de Eneida e Consuelo e também de Joãozinho Trinta, Arlindo Rodrigues, Rosa Magalhães, Renato Lage, Maria Augusta e amigo querido de Candonga, Albino Pinheiro, Ferdí Carneiro, Haroldo Costa, Ziraldo, Sérgio Cabral, Chico Caruso, Paulo Caruso, Jaguar, Lan, Ricardo Cravo Albin e tantos outros…

O dia do Profissional da Economia Criativa do Carnaval é um reconhecimento do povo fluminense ao talento, criatividade e paixão de Ferando Pamplona.

“ Fui criado com contos de fada e não com super-heróis, e tinha muita simpatia pelo Império Serrano pois, na minha imaginação, lá em cima da serra devia estar o castelo da princesa. Minha politização, no tempo da UNE, desviou minha simpatia para a Mocidade Independente. Que nome bonito! Remetia à luta e à liberdade! Porém, a coragem do Salgueiro, seu vermelho e branco, seu enredo falando de um artista-Debret-me marcou. Era 1959. VIREI SALGUEIRO DEFINITIVAMENTE, PARA TODO O SEMPRE!”
(Fernando Pamplona)

Por  Sérgio Almeida Firmino
sergio.firmino@cultura.rj.gov.br
Assessor Especial de Economia Criativa do Carnaval da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa-SECEC.
Diretor Conselheiro do Instituto Cultural Cravo Albin.
Referência Bibliográfica: Pamplona, Fernando: O Encarnado e o Branco
Agradecimentos: ao economista Marcel Balassiano, pelos bons papos sobre
 o Carnaval, sobretudo pelas informações econômicas.
Ao querido amigo e Editor Léo Christiano Ansina, que me presenteou o livro de Fernando Pamplona “ O Encarnado e o Branco” há cinco anos atrás.
Ao produtor José Antonio Rodrigues em me ajudar a apresentar os artistas do Carnaval do Rio de Janeiro.

 

 

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