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A cumplicidade dos militares hoje na ativa, cúmplices pelo silencio. E o livro imperdível com depoimento majestoso de Sobral Pinto, sobre a ditadura Vargas

HELIO FERNANDES (in memoriam)

Por Tribuna em 18/07/2022
A cumplicidade dos militares hoje na ativa, cúmplices pelo silencio. E o livro imperdível com depoimento majestoso de Sobral Pinto, sobre a ditadura Vargas

Nenhum dos militares, hoje na ativa, participou de qualquer ato de violência, crueldade, selvageria do golpe de 1964.

Digamos que tivessem saído da Escola Militar, da Escola Naval, ou da Escola da Aeronáutica no dia 1º de abril, quando assaltaram o país, ou no dia 9 de abril desse macabro e tenebroso 1964 quando tomou posse o primeiro usurpador, Castelo Branco.

A idade é uma só para as três unidades militares. 21 anos. Digamos que tenham ficado na ativa até á idade limite, 64 anos. Assim no ano 2000, teriam 57 anos, já seriam generais ou não estariam na ativa.

Em 2007 completariam os 64 anos limite. Portanto, há sete anos não existe um só militar que tenha participado dos atos arbitrários, autoritários atrabiliarios. Mas devem ser execrados pela cumplicidade silenciosa e corporativa em “defesa” dos ditadores de plantão.

Desde que foi criada a Comissão da Verdade, se recusam a colaborar, fornecer informações, mostrar que o que negaram até agora é um ato repulsivo de colaboracionismo. (como se chamou BA França em 1940, quando Hitler tomou Paris e foi exaltado por franceses liderados pelo ex-herói Marechal Petain).

Em 1964 o Exercito dividido, sufocados os contra o golpe

Quando digo Exercito é porque a predominância deles era total, indecorosa, perigosa, criminosa. Marinha e Aeronáutica “colaboravam”, (novamente a palavra imprescindível), se destacaram no exercício da tortura e da violência.

Em julho de 1963, antes do golpe, fui preso por publicar uma circular sigilosa e confidencial, assinada pelo Ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro. O importante: fui mandado para o BIC, Batalhão de Investigação Criminal, minha estreia na Rua Barão de Mesquita. Ainda sem CODI, que seria criado e comandado pelo general Orlando Geisel.

Fiquei lá três dias, até meus advogados, (Sobral Pinto, Prado Kelly, Adauto Cardoso e Prudente de Moraes neto) pedirem ao bravo Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, minha transferência para Brasília, mas nesses três dias, pude constatar pessoalmente, como o exercito estava dividido. Já se conspirava abertamente, mas também, nos quartéis, se resistia também abertamente.

Não quero contar a História, mas apenas mostrar que os militares não eram todos golpistas. É lógico, esses tomaram o Poder por 21 anos com os crimes e a impunidade garantida à vida inteira e sobrevivendo depois da mote. Sabiamente morreram antes da c-r-i-m-i-n-a-l-i-z-a-ç-ã-o. Ao contrário do Chile da Argentina, onde todos morreram na prisão.

Eu estava incomunicável, mas na hora do banho de sol, me levavam para fora, queriam fingir de magnânimos. Andava por aquele páteo enorme, lógico, cruzava ou emparelhava com oficiais. Muitos me diziam: “Helio, resista, estamos com você”. Outros, com o ódio na alma, na mente, no coração e nos olhos, acreditavam que podiam me fuzilar á distância.

Os que comandam hoje, ofendem o Exercito

Até agora, desde agosto e setembro de 1979, “decretaram” o que não podiam fazer. O fim da tortura ostensiva, a negativa dos crimes cometidos, e por fim, um crime ainda pior: “Anistia ampla, geral e irrestrita”, que só serviria a eles.

E que anos mais tarde, imprudentemente e sem poderes para isso, o Supremo Tribunal consideraria constitucional. O Supremo ainda pode se reabilitar, votando pela inconstitucionalidade do que eles mesmos referendaram sem sentir culpa ou remorso.

Os que comandam hoje, e não participaram de nada nos porões do Exercito, FAB, Marinha, até agora se negaram a reconhecer que esses porões existiram, enxovalharam as Forças Armadas, negaram toda e qualquer violência do Exercito no passado. Agora, em posição cúmplice, omissa pelo corporativismo, insustentável pelo conhecimento do que houve, dão sinais de que pretendem falar.

Não acredito neles, não aceitamos desculpas mentirosas e retardadas, não torturaram fisicamente ninguém, mas mantiveram o país no mais completo desconhecimento de tudo.

No dia 9 de Abril de 1964, Sobral Pinto mandou carta a Castelo Branco na sua posse. Mas no dia 29 do mesmo Abril, tomando conhecimento da tortura, mandou nova carta a Castelo: "O senhor é chefe de estado maior do exercito, não pode fingir que é presidente". Castelo tentou falar com Sobral, não conseguiu de jeito algum.

PS- É preciso examinar e reexaminar a posição dos presidentes civis que colaboraram com a ditadura e não permitiram investigação. Começando com Sarney, serviçal da ditadura, depois presidente por acidente. Mortal para a história por muitos e vários motivos.

"Sobral Pinto": um livro imperdível

Recebi nessa segunda feira, na terça já havia terminado de ler as 316 paginas dos 40 capítulos. Emocionante da primeira a ultima pagina, é estarrecedor em todo o relato sobre a tortura de Harry Berger, o homem mais torturado da historia do Brasil.

Advogado de Prestes e de Berger, além do retrospecto da vida do inimitável defensor, o único que esteve ao lado de presos políticos em duas ditaduras: a de Vargas apoiado pelos militares, a dos militares (generais) garantida pelos civis.

Além do relato das dificuldades do próprio Sobral, que não cobrava de ninguém, não atendia nem os apelos da própria mulher, "Sobral, cobre alguma coisa, não temos nada em casa". Continuou imperturbável, não mudando o mínimo que fosse do seu comportamento como advogado.

O relato capitulo por capitulo, pagina por paginam linha por linha, obriga a uma retificação do próprio repórter. Eu sempre escrevi, que "Prestes foi o prisioneiro mais torturado do Brasil". Sabia que Berger havia "enlouquecido" com a tortura e com o regime de prisão a que foi submetido durante dois anos.

Mas não tinha ideia do que Berger sofrera nesse tempo todo. Sobral, sem o mínimo de esmorecimento escrevendo e procurando pessoalmente juízes, Ministros da Justiça. E até para o ditador Getúlio Vargas que se recusou a receber Sobral Pinto, mas não pode deixar de ler a carta minuciosa e candente, que Sobral escreveu a ele. Leu e não tomou nenhuma providencia.

Por Helio Fernandes – Jornalista-editor da Tribuna da Imprensa (in memorian)

  (1920 – 2021)

 

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